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Os Cadernos do Alquimista


Sábado, 03.06.17

O Sujeito inicial

O hors d’œuvre começa com corpos químicos vulgares, os quais, ao que tudo indica, pertencem à química inorgânica, verdadeira matéria inanimada:

«[...] [A]s inúmeras propriedades, mais ou menos maravilhosas, atribuídas em bloco pelos filósofos à pedra filosofal unicamente pertencem, cada uma, às substâncias desconhecidas obtidas a partir de materiais e de corpos químicos, mas tratados segundo a técnica secreta do nosso Magistério [1]

Porém, não se trata uma matéria qualquer. O Sujeito inicial é um corpo simples e não um composto químico, pois, «[…] todas as coisas impuras e manchadas não convêm à nossa obra […] os nossos corpos devem ser lavados e purgados de toda a sua impureza […]. Os nossos Mestres procuram um corpo puro e sem mácula que não seja alterado por nenhuma mancha ou mistura […]. [2]. »

É, além do mais, um parente pobre da família dos metais, argumenta e bem Fulcanelli [3]. Portanto, para o Mestre, ele não só não pertence à família dos metais – ou seja, não é um metal –, como ainda é um parente pobre, que é, pois, o mesmo que dizer que se afasta significativamente deles.                                         

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Ora, um dos primeiros alquimistas a sugerir (exotericamente) que se devia fazer a Pedra a partir de um ametal foi o mercador alemão Henning Brand (1630-1710), ao [re-]descobrir o fósforo em 1669, enquanto destilava urina, inspirado, segundo se crê, em tratados herméticos como o livro 400 Außerlesene Chymische Proceß (Beyer, 1641) de Thomas Kessler de Strasbourg.

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         O Alquimista à procura da Pedra Filosofal de Joseph Wright (1771).

            Pintura que retrata a descoberta do fósforo por Henning Brand.

 

«Das considerações precedentes, ressalta nitidamente que a pedra filosofal, ou Medicina universal, apesar da sua origem metálica inegável, não é feita unicamente de matéria metálica. A não ser assim, e se na sua composição só entrassem metais, ela continuaria submetida às condições que regem a natureza mineral e não teria qualquer necessidade de ser fermentada para operar a transmutação. Por outro lado, o axioma fundamental que ensina que os corpos não têm qualquer acção sobre os corpos seria falso e paradoxal. Dai-vos ao tempo e ao trabalho de experimentar, e reconhecereis que os metais não actuam sobre outros metais. Quer sejam levados ao estado de sais ou de cinzas, de vidros ou de colóides, conservam sempre a sua natureza no curso das provações e, na redução, separam-se sem perder as suas qualidades específicas.

Só os espíritos metálicos possuem o privilégio de alterar, de modificar e desnaturar os corpos metálicos. São eles os verdadeiros promotores de todas as metamorfoses corporais que neles podem observar-se. Mas como esses espíritos, ténues, extremamente subtis e voláteis, precisam de um veículo, de um invólucro capaz de os reter; de que a matéria seja muito pura – para permitir ao espírito nela permanecer – e muito fixa, a fim de impedir a sua volatilização; que continue fusível, a fim de favorecer o ingresso; por ser indispensável assegurar-lhe uma resistência absoluta aos agentes redutores, compreende-se sem custo que essa matéria não possa ser procurada na única categoria dos metais. É por isso que Basílio Valentim recomenda que se tome o espírito na raiz metálica, e Bernardo o Trevisano proíbe empregar os metais, os minerais e seus sais na construção do corpo. A razão é simples e impõe-se por si mesma. Se a pedra fosse composta por um corpo metálico e um espírito fixado a esse corpo, actuando este sobre aquele como sendo da mesma espécie, o todo tomaria a forma característica do metal. Poder-se-ia, nesse caso, obter ouro ou prata, ou até mesmo um metal desconhecido, e nada mais. É isso o que sempre fizeram os alquimistas, porque ignoravam a universalidade e a essência do agente que eles buscavam. Ora, o que nós pedimos, como todos os filósofos, não é a união de um corpo e de um espírito metálicos, mas sim a condensação, a aglomeração desse espírito [metálico] num invólucro [não-metálico] coerente, capaz de envolver, de impregnar todas as partes e de lhes assegurar uma protecção eficaz. É esta alma, espírito ou fogo reunido, concentrado e coagulado na mais pura, mais resistente e mais perfeita das matérias terrestres, que nós chamamos a nossa pedra. E podemos certificar que todo o empreendimento que não tenha este espírito por guia e esta matéria por base não conduzirá nunca ao objectivo proposto [4]

O corpo simples, sobre o qual se deve começar a trabalhar, só pode, assim, ser um ametal e, neste caso, elegemos a via do fósforo ou via de Brand.

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«O método mais seguro para fazer este fósforo é fazer evaporar uma certa quantidade de urina fresca sobre um fogo doce, até que esta seja reduzida a uma substância negra & quase seca. Misturem, em seguida, exactamente duas libras desta matéria com quatro libras de areia fina, e introduzam a mistura numa forte retorta de grés: derramem então um ou dois litros de água bem clara num grande recipiente de longo gargalo; juntem este gargalo à retorta, & destilem a um fogo nu. É preciso ter o cuidado de que este calor seja moderado durante as duas primeiras horas; após as quais, deve ser aumentado gradualmente até uma grande violência & continuar assim consecutivamente durante três ou quatro horas. Quando esse prazo expira, passa para dentro do recipiente um pouco de fleuma & de sal volatil, muito óleo negro fétido, & por fim a própria matéria do fósforo [...] [5]

Este fósforo surge sob a forma de uma substância branca e deve-se ter o cuidado de deixar primeiro o fogo abrandar sem retirar o recipiente até que este tenha resfriado, para que o fósforo não se inflame com a entrada de ar do exterior.

Com efeito, o fósforo branco é extremamente inflamável em contacto com o oxigénio, além de ser extremamente venenoso - uma dose de 50 mg pode ser fatal.

Ora, o alquimista alemão Abraham Lambsprinck, no seu tratado De Lapide Philosophico, indica-nos, claramente, que a substância com a qual se deve dar início à Obra é de uma baixa extracção, que do pior provém o melhor (verso da 9ª figura), sendo que é do Veneno que se faz a Medicina: «É uma grande maravilha e estranha astúcia/ Fazer de um Dragão a Medicina Suprema» (verso da 6ª figura).

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___________________

 

[1] « [...] [L]es innombrables propriétés, plus ou moins merveilleuses, attribuées en bloc par les philosophes à la seule pierre philosophale appartiennent chacune aux substances inconnues obtenues en partant de matériaux et de corps chimiques, mais traités selon la technique secrète de notre Magistère.», Les Demeures Philosophales et le symbolisme hermétique dans ses rapports avec l’art sacré et l’ésotérisme du grand œuvre, Jean-Jacques Pauvert, éditeur, Paris, 1965, t. I, «Louis d’Estissac», p. 274.

[2] « […] toutes choses impures et souillées ne conviennent pas à notre œuvre […], nos corps doivent être lavés et purgés de toute leur impureté […]. Nos Maîtres recherchent un corps pur et sans tache qui ne soit altéré par nulle souillure ou mélange […].», Basile Valentin, Les Douze Clefs de la Philosophie, Traduction, Introduction, Notes et Explications des Images par Eugène Canseliet, Éditions de Minuit, Paris, 1956, «Première Clef», pp. 107-108. 

[3] Les Demeures Philosophales, t. I, « La Salamandre de Lisieux», p. 167. 

[4]  «Des considérations précédentes, il ressort nettement que la pierre philosophale, ou Médecine universelle, malgré son origine métallique indéniable, n’est pas faite uniquement de matière métallique. S’il en était autrement, et qu’on dût la composer seulement de métaux, elle resterait soumise aux conditions qui régissent la nature minérale et n’aurait nul besoin d’être fermentée pour opérer la transmutation. D’autre part, l’axiome fondamental qui enseigne que les corps n’ont point d’action sur les corps serait faux et paradoxal. Prenez le temps et la peine d’expérimenter, et vous reconnaîtrez que les métaux n’agissent pas sur d’autres métaux. Qu’ils soient amenés à l’état de sels ou cendres, de verres ou de colloïdes, ils conserveront toujours leur nature au cours des épreuves et, dans la réduction, se sépareront sans perte de leurs qualités spécifiques.

Seuls, les esprits métalliques possèdent le privilège d’altérer, de modifier et dénaturer les corps métalliques. Ce sont eux les véritables promoteurs de toutes les métamorphoses corporelles que l’on peut y observer. Mais comme ces esprits, ténus, extrêmement subtils et volatils, ont besoin d’un véhicule, d’une enveloppe capable de les retenir; que la matière doit être très pure, - pour permettre à l’esprit d’y demeurer, - et très fixe, afin de empêcher sa volatilisation; qu’elle doit rester fusible, dans le but de favoriser l’ingrès; qu’il est indispensable de lui assurer une résistance absolue aux agents réducteurs, on comprend sans peine que cette matière ne puisse être recherchée dans la seule catégorie des métaux. C’est pourquoi Basile Valentin recommande de prendre l’esprit dans la racine métallique, et Bernard le Trévisan défend d’employer les métaux, les minéraux et leurs sels à la construction du corps. La raison en est simple et s’impose d’elle-même. Si la pierre était composée d’un corps métallique et d’un esprit fixé sur ce corps, celui-ci agissant sur celui-là comme étant de même espèce, le tout prendrait la forme caractéristique du métal. On pourrait, dans ce cas, obtenir de l’or ou de l’argent, voire même un métal inconnu, et rien de plus. C’est là ce qu’ont toujours fait les alchimistes, parce qu’ils ignoraient l’universalité et l’essence de l’agent qu’ils recherchaient. Or, ce que nous demandons, avec tous les philosophes, ce n’est pas l’union d’un corps et d’un esprit métalliques, mais bien la condensation, l’agglomération de cet esprit dans une enveloppe cohérente, tenace et réfractaire, capable de l’enrober, d’en imprégner toutes les parties et de lui assurer une protection efficace. C’est cette âme, esprit ou feu rassemblé, concentré et coagulé dans la plus pure, la plus résistante et la plus parfaite des matières terrestres, que nous appelons notre pierre. Et nous pouvons certifier que toute entreprise qui n’aura pas cet esprit pour guide et cette matière pour base ne conduire jamais au but proposé.», Ibid., pp. 183-184-185.

[5] «La methode la plus sûre pour faire ce phosphore, est de faire évaporer une certaine quantité d'urine fraîche sur un feu doux, jusqu'à ce qu'on l'ait réduite à une substance noire & presque séche. Mêlez ensuite bien exactement deux livres de cette matière avec quatre livres de sable fin, & mettez le mélange dans un forte rétorte de grès: versez alors une ou deu pintes d'eau bien claire dans un grand récipient à long col, luttez ce col à la retorte, & distillez à feu nud. Il faut avoir soin que la chaleur soit modérée pendant les deux premières heures; après quoi, il faut l'augmenter par degrés jusqu'à la plus grand violence, & continuer ainsi pendant trois ou quatre heures consécutivement. Quand ce terme est expiré, il passe dans le récipient un peu de flegme & de sel volatil, beaucoup d'huile noire fétide, & enfin la matière même du phosphore [...].», Peter Shaw, Leçons de Chymie propres à perfectionner la physique, le commerce et les arts, traduction de l'anglais par Mme G. Ch. Thireux d'Arconville, J. Th. Hérissant, 1759, «Dix-Neuvième Leçon - Sixième Expérience, qui enseigne la méthode de faire le phosphore liquide avec l'urine», p. 425.

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